Hoje, olho ao espelho e vejo simplesmente um ser que desistiu de todas as suas verdadeiras verdades e vontades, e no lugar disso, plantei uma semente de foda-se que antigamente costumara ignorar. Sinto como se dentro de mim, aquela luz que antes pulsava toda vez que um simples ato de "afeto" estava presente no ar, assim como um simples "olá" vindo de uma pessoa estranha.
Sempre acreditei na bondade de estranhos, sempre acreditei que para que tivéssemos algo bom, deveríamos ter o dobro de bondade em nosso coração em relação às outras pessoas. E assim sempre foi em toda a minha vida, dia pós dia segui este pensamento, esta ideia fixa de que demonstrando meus verdadeiros valores, tudo se resolveria da melhor forma no final.
Nunca obtive tal resultado.
Talvez tenha conseguido algumas migalhas desta tal "recompensa", porém, ao mesmo tempo que me sinto desolado, me sinto egoísta por simplesmente demonstrar meus sentimentos verdadeiros e primordiais para receber uma "recompensa".
E então, olhando-me para o espelho, vejo o reflexo dos meus olhos e sei que não foi sempre assim. De tempos em tempos, nós nos reformamos e nos revolucionamos internamente. Isso interfere em vários pontos em nossa mente, em nosso coração; esta mudança consiste em criar barreiras e formas de proteger nossos próprios sentimentos.
Mas, até que ponto isso é egoísmo? Quando você dá o seu máximo para reciprocamente ter o que concedeu? Será que isto seria mesmo egoísmo ou apenas uma forma de se sentir recompensado por sempre pensar nas outras coisas além de si mesmo, mas por uma série de eventos, isso não se torna mútuo?
Se pensarmos de uma forma humana, na realidade não faria sentido nenhum dar um simples "olá" ou um "bom dia" para um desconhecido, porém, se pensarmos de uma forma submissa ou caridosa (ao menos uma vez) talvez este simples ato poderia mudar o dia do indivíduo ou até mesmo a sua vida.
Acredito no poder de coisas pequenas e simples; acredito que para tudo existe uma explicação concreta, porém estamos muito limitados para entender; acredito que nunca estamos sozinhos quando estamos realmente solitários; acredito, sim, que podemos ter exatamente tudo o que queremos, se realmente almejarmos.
Costumava a acreditar na bondade de estranhos; costumava a acreditar em pequenos atos de amor; costumava a acreditar no poder de um olhar ou de um simples toque; costumava a acreditar em palavras; costumava a acreditar em pessoas; costumava a acreditar no amor; costumava a acreditar na amizade; costumava a acreditar mais em mim.
E então, pouco a pouco, tudo foi se destruindo, pouco a pouco, tudo foi se quebrando em meu coração, tudo o que costumara a acreditar, mostrou-se impossível de se ter confiança e em mim esta tal confiança começou a se tornar simplesmente nada, e chegou a um ponto que até meu próprio ser começou e desistir de si mesmo.
Hoje em minha alma, não existe mais a necessidade de fazer o bem para outras pessoas, também é ausente o sentimento de expectativa da reciprocidade. É ausente em meu ser, a vontade de mostrar ao mundo o meu verdadeiro eu, que agora, se esconde no olhar que reflete no espelho e vaga nas linhas tênues entre minha alma e meu ser.
Talvez seja um erro, mas não deixa de ser uma proteção. Para alguém que sofreu muito com este tipo de ferida, um corpo que está cansado de cicatrizes. Cicatrizes que não se curam com um simples curativo. Feridas que não se fecham.
Infelizmente, não existe cura.
A morfina que hoje me ajuda, se torna um vício incurável que carrego há muito tempo e tem funcionado muito bem para que a pior dor de todas não seja sentida. Esta forma de "cura" sempre me ajudou a me tornar mais forte contra essas feridas e por pior que seja, nunca doeu tanto quanto a dor de uma ferida na alma.
As sombras desta tal cura, sempre irão me perseguir lembrando-me de quão fraco sou. Seja onde for, sempre estará em mim as marcas da morfina que tanto está presente em meu corpo. Sinto vergonha por ser tão fraco e covarde, mas não existe outra forma de continuar.
A partir de hoje e sempre, viverei minha vida de uma forma que as coisas sejam mais simples, e sem graça, simplesmente em preto e branco, sem cores, sem vida, um caos.
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"I dreamed a dream in time gone by,
When hope were high and life worth living.
I dreamed that love would never die,
I dreamed that God would be forgiving. [...]
I had a dream my life would be
So different from this hell I'm living,
So different now from what it seemed,
Now life has killed the dream I dreamed."
- I Dreamed a Dream, Les Misérables (1980) Alain Boublil -